Dois pombinhos
Luis Fernando Verissimo
Tocou a campainha e a mulher saiu do chuveiro, se enrolou numa toalha e foi abrir a porta. Era o Quico, tão amigo dela e do marido que passava pelo porteiro de prédio sem ser anunciado. - Oi, Quico. - Oi. Posso entrar? - O que você quer? Eu estava no banho e... - O Aldemar está? A mulher hesitou. - Não. Quer dizer... - Vocês estavam tomando banho juntos. Acertei? - Não, que ideia. - Estavam ou não estavam? - Não! - Não precisa ficar envergonhada, Tina. Eu acho isso muito bonito. A Maura e eu não tomamos banho junto desde, iiih... Acho que o Sarney ainda era presidente. Às vezes eu peço, mas ela diz “Não seja ridículo”. - O Aldemar e eu não estávamos tomando banho juntos. Tire essa ideia da sua cabeça. - Mas qual é o problema? É lindo isso. Depois de tantos anos de casamento, tomando banho juntos. Como na lua-de-mel. - Nós não estávamos... - É o que eu sempre digo pra Maura. Aqueles dois estão sempre um lua-de-mel. Nossos outros amigos vivem brigando, têm crises, se divorciam, e você e o Altemar vivem como... - Não diga! - O quê? - O que você ia dizer. Dois pombinhos. - Mas é verdade. Vocês vivem como... - Não diga! - Mas... - Dois pombinhos. Só falta você dizer que, ao contrário dos seus amigos interessantes, nós somos uns quadrados. Simplórios, antiquados, românticos e sem graça. E ridículos! - Não era isso que eu... - Dois pombinhos. Pois fique sabendo que nós temos crises, sem senhor. Brigamos e nos desentendemos como qualquer casal normal. E não tomamos mais banho juntos! Nisso se ouviu uma voz de homem vinda do banheiro: - Tina, você não vai voltar pro chuveiro? Silêncio na sala. Depois o Quico, incerto: - Era a voz do Aldemar? - Não. - Quem era? - Outro homem. - Quem? - Não te interessa. Outra vez a voz do banheiro: - Tina! - É a voz do Aldemar. - Não é. O Aldemar não está aqui. Sabe onde o Aldemar está? Num psicanalista. Porque ele é tão complicado quanto qualquer um dos seus outros amigos. - E você está tomando banho junto com outro homem enquanto o Aldemar vai ao psicanalista? - Estou. Por quê? - Não, nada, eu apenas... - Adeus, Quico. - Mas... - Quando o Aldemar voltar, eu digo que você quer falar com ele. - Olha, me desculpe, eu... - Adeus, Quico. - Juro que não vou dizer nada para ninguém. - Pode dizer. Espalhe. Conte para a Maura. - Não, eu... - Adeus, Quico. A mulher voltou para o chuveiro. - Quem era? – perguntou o Aldemar. - O Quico. - O que ele queria? - Nada. Vamos brincar que você é outro homem? - Quem? - Sei lá. Alguém que veio consertar o aquecedor e eu convidei pra tomar banho. - Como é o meu nome? - Brad. Não, Anthony. - Vire para lá que eu vou ensaboar você toda. - Não, Anthony. Oh, Anthony, não!
xx -- xx -- xx
Em casa, Quico avisou Maura que era para ela se preparar para um choque. - Sabe os dois pombinhos?
Domingo, 22 de agosto de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.